22.3.11

até mais, reginalda

Quando nos conhecemos, olhou-me desconfiada. Gostei mais do que de muitos abraços em apresentações. – Só o Senhor é Deus – deve ter-me dito naquele encontro.
Ano de 1992, tia Regina carregava uma década e pouca de cortisona e seus efeitos. Grande, não me parecia uma girafa, como sempre havia um a lembrar.
Alta, estava acima do padrão brasileiro, especialmente da geração de mulheres nascidas no interior do país em 1929. Media bem mais que um metro e setenta.
O rosto redondo, olhinhos fechados, um ar de impaciência para com atoleimados. – Só o Senhor é Deus – repetia a si mesma, enquanto inspirava fundo.
Braços e pernas davam sinais de que a vida, a partir dali, seria de muita dor. – Só o Senhor é Deus – gemia, para suportar.
Travestia a ironia de mau humor.
Levamos um tempo até ela dizer que gostava de mim. Outro tanto para confessar o amor. – Só o Senhor é Deus – justificou. Também levei um tempo até saber que a amava. Profundamente.
Muito diferentes e muito iguais, éramos amigas. Ria, quando eu contava que éramos irmãs de outras "encadernações". – Só o Senhor é Deus – sussurrava para si, por meus "desvios de fé".
Aos 17 anos era enfermeira prática e aos 24, por competência, chefe do Hospital de Xavantina, em Mato Grosso. 1946 e 1953, respectivamente.
Cortejada, recusou pedidos de namoro, noivado, casamento. Só se arrependia de não ter aceitado o pedido para ir para o Rio de Janeiro, na companhia de um curso de medicina. – Só o Senhor é Deus – dizia, perdida em pensamentos. Talvez buscando explicação para este "não" específico.
Virgem, foi mãe de todos os sobrinhos, até os bisnetos. Frutos do galho híbrido da irmã Josefa, a Iaiá, e do cunhado Mozart, o Ioiô. Só o Senhor é Deus, pontuava, pela bênção desta maternidade enviesada.
Tem pouco mais de um  mês, que minha amiga se foi. Falta pouco mais de um mês para os quatro anos em que fiquei sem minha outra amiga, dona Áurea, minha mãe.
Devem estar na conversa, lá em cima.

2 comentários:

paulo disse...

Amo seu texto, Marcia.

CACAU® disse...

A gente vive um amor que não explica, né?
Saudades e lembranças boas.