24.9.09

descabelada

corte estilo desalinhado
pentear não faz parte
do vocabulário

(em 17/09/09)

24.6.09

silêncio difícil


adoro teus ditos
o duro são
os não ditos

13.6.09

talking

hoje me vi conversando
com minha caneta
sobre nosso tinteiro

hai kai do matheus

Pousou borboleta
no parapeito sem jeito
de nossa saleta


(na aula de literatura)

25.5.09

saudade

café com meu amor
tempos
de bom humor

20.4.09

Mimo

Escondido,
sob três exemplares
do Decreto do Acordo Ortográfico Brasileiro

Encontro O Quinze
manuscrito de Rachel, em segura pré-grafia
delicada jóia, você me deu

28.3.09

réquiem


pela manhã

dissemos sim, à veterinária



por volta do meio-dia

enterramos shashá junto ao thor



à noite, tomamos vinho

celebração da vida

que ela me deu
(foto: Roger dy lá Fuente)

25.3.09

Musse de abacate

ganhe um abacate
"sem fiapos"
de honorável amiga

deixe por uns dias,
na fruteira,
natureza morta

modo de preparo:
bata no liqüidificador
polpa, leite condensado e creme de leite

em iguais quantidades,
ou não
sirva-se sem cerimônia

(tks sato san)

20.3.09

Diálogo

- Como se faz o óleo de pequi?
- Primeiro, espera pequi,
cair de maduro

Fênix

quase ninguém vê
para renascer das cinzas
há que arder
(em 17/03)

Feitiço de Áquila

Galo e serpente, no mesmo ambiente
par perfeito, diz o horóscopo chinês
Dia e noite, se completam
Às cinco, a serpente dorme
ficou baixando música
e o galo desperta, para escrever um poema
(em 15/03)

3.3.09

não tiro

tequila
tranqüila
desobediente

15.2.09

Slow travel

Aprendizagens de Piri
café oxida
amizade não oxida


(tks Udi)

6.2.09

Presente


ando por aqui, perdida no meu labirinto
em busca de minha história,
qual alice atrás do coelho

é que descobri um novo espelho por onde entrar,
uma gaveta, talvez,
Chaves sob os papéis

portas para caminhos
algumas vezes, inconfessas,
sonhados



(Feliz aniversário, Sue)

30.1.09

E eu digo não ao não

Todos à praça
mesmo para dizer
um NÃO, sem graça

21.1.09

Descoberta

Quanto tempo dura
um segredo?
meio século está de bom tamanho
(14/01/09)

Pachorra

Grama fresquinha,
os cães pastores,
pastam
(14/01/09)

No íntimo

Tua gentileza me dá tesão


mesmo quando


digo, não!
(14/09/08)

4.10.08

Até
tu,
Rufus?

14.9.08

Presente de Natal

Conheci o senhor António,
fidalgo, certamente
um sábio

FREE

tenho pensado em mudar de brasília



ou de ficar...



sem pertencer
(novembro de 2008)

17.8.08

adolescente

Espinha, cabelo e tchau!
meu galinho,
é galalau

Cumpádi

Homenzarrão
cara de mau
choro de bom

6.8.08

descasos


a identidade perdida,
desde os 18 anos deve ser
uma outra vida



(desenho de Matheus dy lá Fuente)

1.8.08

Hoje eu preciso falar um pouco mais

Fui visitar Sonia, ontem, no início da serra, onde vive encastelada – ora é rainha, ora alice, ora a lagarta. Fui levar um abraço a quem sabia triste, pela perda do mestre. Estava mesmo tristonha, pintando molduras para os novos trabalhos. Amarelas, em homenagem ao mestre.

- Ele era um alquimista. Um dia, fui a seu ateliê e ele estava misturando cores e me disse feliz que estava “fazendo ouro”. Sonia foi aluna do mestre Athos Bulcão.

Tomamos café, comemos melão, conversamos sobre Calvino, 2012, as agruras cotidianas, a pressa angustiante do mundo. Sobre a falta que o Athos faz.

Peguei o carro ladeira abaixo e voltei para o Plano Piloto, lavar o carro empoeirado da visita ao castelo – e a outros tantos caminhos poeirentos nestes dias secos. Li uma entrevista antiga do Fidel, outra do Figueiredo. Quanto contraste. À noite, não quis ver o noticiário, achei tão pobre tudo o que vira durante o dia sobre a morte do Athos...

Hoje acordei 19 anos atrás.

Recém-chegada em Brasília, resolvi fazer algumas aulas de pintura, conversei com Elder Rocha Lima, o filho, que aceitou ser meu professor. Mas durou pouco nosso contato. Ele ganhou uma bolsa e foi para Londres fazer mestrado. Me disse que tinha uma amiga, Sonia Paiva, que também era artista plástica, dava aulas no ateliê. Não fui.

O jornal – trabalhava na Folha de S.Paulo, na época – me tomava muito tempo, mas mesmo assim continuei pintando em casa, no meio da sala, para desespero do Aguinaldo Nogueira e da Rosana Bond, jornalistas que dividiam o espaço comigo, na 405 Sul. Um dia resolvi que deveria falar com Athos Bulcão, mostrar as minhas pinturas para ele. Consegui o número do telefone, falei diretamente com ele, marcamos um chá. No apartamento dele. Às 17h.

Cheguei apressada, no dia marcado, uma tela de saco com umas pinturas estranhas multicoloridas. Falei muito. O que pensava daquela pintura, que era jornalista, e que devia estar atrasada para alguma coisa. Sentia-me muito íntima. Afinal, convivia com seus azulejos do Parque da Cidade, a lateral do Teatro Nacional, as entradas de muitos prédios, a igrejinha, o Congresso, a treliça linda – e brincante – do Itamaraty. Ele me observava sem pressa, falava sempre pausado e gentil.

No apartamento organizado, o que me chamou a atenção foi a coleção de bolinhas de gude. Lindas, no pote disposto em destaque sobre a mesa de canto. As máscaras despontavam aqui e acolá. O chá, servido por sua escudeira de décadas, estava perfeito. Da arrumação da mesa ao lanchinho propriamente dito.

Pronto, eu havia me desnudado à frente daquele senhor tão educado e observador. Fiquei um pouco envergonhada de toda a minha pressa. Parecia o coelho da Alice: – “.. é tarde, é tarde. Olá! Adeus!”

Athos observou a “tela” e fez as críticas pertinentes. Sim, o que eu precisava era ter aulas de pintura. Pegou um papel e escreveu um bilhete de apresentação. “É uma professora jovem, mas o seu trabalho tem muito a ver com o que ela faz”, ele disse. Depois da tempestade que provoquei no apartamento, Athos me ofereceu carona. Com pouco mais de 70 anos, dirigia a 40km por hora, como previa a placa de trânsito. Os outros motoristas, impacientes, ultrapassavam meu caroneiro que só fez um comentário: “quanta pressa”.

Voltei para casa um misto de feliz e patética. Fui ao Athos para ouvir o que Elder, que também foi aluno dele, havia me recomendado. Fui procurar Sonia Paiva.

6.6.08

Vênus e Marte

Faço amor
você, sexo.
e trocamos posições

30.5.08

Sozinho


O velho colhe o que plantou:
intolerância, ignorância, mágoa.
Colheita farta

imagem: desenho de Matheus dy la Fuente